sábado, 13 de junho de 2009

Desistência

Chegou em casa no mesmo horário. Era para ser um dia como outro qualquer. Caras assustadas no corredor do prédio deram a entender que algo diferente tinha ocorrido. Ele tinha 90 anos, uma vida aparentemente tranquila. Ninguém podia imaginar que daria um tiro na própria cabeça, naquela idade. Paixão. Só podia ser um amor não correspondido por uma moça mais jovem, escutou alguém dizer. O que levaria uma pessoa que já passou por tudo na vida, dar cabo da própria existência aos 90 anos? Passou fome aos três anos de idade, vindo com os pais de uma cidade do interior da Itália. Logo na chegada, devido à multidão, perdeu-se dos pais no porto e ficou mais de 15 dias vagando nas redondezas, vivendo de esmolas. Foi encontrado pela mãe desesperada e já fraca pela doença que não diziam o nome. A certeza era só que havia a contraído na viagem. Naquelas nove décadas, sobreviveu à morte prematura da mãe quando tinha apenas cinco anos e teve que viver apenas com o pai, que o deixava com a vizinha brava por semanas, devido a viagens de trabalho. Passou pela adolescência, engraxando sapatos, vendendo frutas de porta em porta. Amou secretamente a moça bem mais velha, que trabalhava na joalheria, de quem recebeu o primeiro beijo, no sonho, mas contabilizou assim mesmo. O que passava na cabeça daquele senhor que todos gostavam de ouvir as histórias de imigrante. Não, matar-se assim, como teve coragem? Teria que haver um motivo forte. Ele que havia conseguido o primeiro emprego dignamente no restaurante que jamais havia imaginado sentar-se um dia. Tornando-se sócio anos depois e, mais depois ainda, único dono. Ele que sempre sonhou em ter muitos filhos e netos para descontar a família de três pessoas que seus pais haviam lhe dado. Logo agora que tinha tempo para curtir a todos, seus netos e bisnetos que sempre estavam por perto. Aos 90, sem nenhuma doença, nada de internação no currículo, nem um osso quebrado, nenhuma doença de velho, nem esquecimento tinha. Nada. Nenhuma motivo vinha à cabeça. Sempre tão amável. Nem revólver ele tinha! Pela doçura de pessoa que era, o certo seria se matar com algo menos dolorido. Um veneno bem gostoso. Não daquela forma, diziam todos. Tinha que haver uma carta de despedida. Uma explicação. Mas nada. E ele que nunca foi de mistérios. O mais perto disso que chegou foi quando avisou ao pai que se casaria, mas não contou o nome da noiva até um dia antes do noivado. Teve medo de algo ocorrer. A amava tanto que guardava seu nome só para si. E essa foi a mulher que mais amou em toda sua existência, pelo menos é o que todos pensavam. A mesma que lhe deu três meninos e uma menina. Mas também a que o abandonou ainda jovem, morrendo atropelada em frente ao restaurante que, anos depois, viria a ser da família. Era uma colega de trabalho que virou paquera, namorada, noiva, esposa, seu grande amor que o deixou viúvo aos 42 anos.

Ela chegou no momento em que a notícia havia sido dada pelo padrasto à mãe. A pobrezinha chorava silenciosante a morte do pai, homem que a ensinou a cozinhar como uma verdadeira chef de cozinha. O namorado da irmã estava à porta consolando-a. Os vizinhos chegavam calados e se acomodavam no sofá, sem palavra. Não havia o que podia ser dito.

Ela sentou-se ao lado da mãe. Segurou sua mão e lembrou a primeira vez que o avô a havia ensinado a preparar seu prato predileto, aos nove anos de idade. Lembrou de suas frases sempre prontas para acalentar o coração triste por alguma nota baixa na escola “notas são como a vida, tem altas e baixas” ou algum casinho de amor que não deu certo “sofra por amor apenas até o seu limite, nunca mais que isso”. Desistir de tudo aos 90. Acalmou-se. Fechou os olhos e imaginou que, para dar continuidade à ideia de ser como o avô, teria que esperar mais 55 anos.

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