segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Funarte-MG traz a BH o espetáculo Mão na Luva, do Grupo Tapa de SP

Em uma noite, um casal resolve trazer a tona todos os conflitos adormecidos durante nove anos de casamento. Unidos pela força da atração mútua e pela cumplicidade de ideais, ‘Ele’ e ‘Ela’, assim identificados pelo autor, discutem a separação ritmados pela pulsação emocional, revelando segredos de uma relação conflituosa entre quatro paredes. Essa é a tônica do espetáculo “Mão na Luva”, texto de Oduvaldo Vianna Filho (Vianinha), levado aos palcos pelos atores paulistanos Marcelo Pacífico e Isabella Lemos, fundadores do Teatro CIA e membros do Grupo Tapa. Elogiada pela crítica especializada de São Paulo, a montagem faz temporada em Belo Horizonte de 20 de janeiro a 27 de fevereiro, dentro da programação da Funarte-MG/2011.

Na trama, estruturada em cenas entrecortadas por flashes do passado, ‘Ele’ é jornalista de uma revista que está se vendendo aos interesses econômicos e políticos da época. Idealista, busca organizar uma publicação independente junto com os colegas de trabalho. Mas ao se render ao regime, tomando o lugar de um dos companheiros que já havia deixado a revista, ‘Ele’ sobe na vida, contradiz os seus ideais e perde a estima dos amigos e, principalmente, da mulher, ‘Ela’. Ao rever a história de nove anos de casamento, que inclui aventuras extraconjugais de ambos os lados, ‘Ela’ anuncia o desejo de deixá-lo, acusando-o de fraqueza moral. A questão ética vivida por ‘Ele’ tem o mesmo peso dramático da traição amorosa. Assim, discutindo princípios, coerência ideológica, oportunismo e infidelidade, Vianinha trata de amor, confiança e relações.

“...um apaixonadíssimo poema de amor, recitado através de diálogos de um lirismo desenfreado, às vezes singularmente pouco submisso às normas do raciocínio.” Yan Michalski, colunista do Jornal do Brasil entre as décadas de 1960 e 80, considerado um dos mais conceituados críticos teatrais cariocas.
  
Visto como autor político, Vianinha revela em “Mão na Luva” um lado seu menos conhecido e mais interessado nos dramas privados da classe média. Para Marcelo e Isabella é surpreendente perceber a atualidade do texto, com que se identificam de forma tão poética, contundente e cuidadosamente construída. A universalidade do tema, tratado de forma tão desconcertante pelo autor, é o que instigou e levou os atores a reconhecer dentro de um processo de estudos, pesquisas e ensaios, uma ligação direta com o que o próprio Vianinha disse em sua última entrevista, em 1974: “Acho que a responsabilidade do artista hoje é a da profundidade, é a tentativa desesperada de seguir o que disse Brecht: ‘Aprofunde o mais que puder, pois só assim poderá descobrir a verdade’. É essa tentativa de ser profundo e atingir a profundidade não no sentido de ser obscuro, mas a profundidade no sentido da riqueza da realidade, de riqueza da vida, de paixão pela existência humana.”

“Dentre os diversos autores já trabalhados pelo Grupo Tapa, desde a sua fundação em 1979, Oduvaldo Vianna Filho é um dos dramaturgos brasileiros mais instigantes e desafiadores. A força e poesia de seu texto são diretamente aliadas a um experimentalismo cênico que desafia não só os atores, mas também o seu público. O trabalho de Isabella Lemos e Marcelo Pacífico é surpreendente na medida em que eles encontraram uma forma muito particular de encenar este texto e este autor, se apoderando com muita propriedade do tema para criar sua própria linguagem cênica, além de possuírem o perfil adequado aos personagens”, diz Eduardo Tolentino de Araújo, diretor e fundador do Grupo Tapa.

Mariangela Alves de Lima, importante crítica teatral paulistana, escreveu sobre o espetáculo para o jornal O Estado de São Paulo: “...a vigência dessa relação construída sobre os alicerces etéreos da afinidade e da atração sexual só tem para defendê-la dois corpos desarmados. E é sobre essa perspectiva do embate corporal que se organiza o espetáculo idealizado pelos intérpretes Isabella Lemos e Marcelo Pacífico...” “...É a tonicidade do diálogo corporal e verbal assumida pelos intérpretes do espetáculo que indica a dimensão da perda. Porque são ambos vigorosos, atentos e receptivos aos sinais do parceiro em cena, os dois intérpretes formam uma unidade em que não há ponto de fissura aparente. Estão ainda ligados e, na aparência, formam um amálgama cuja dissolução os diálogos anunciam, mas que não se realiza em cena. Mesmo quando se agridem, os encaixes são precisos e aparentemente naturais, tal como os combates estilizados na coreografia dos tangos. Assemelham-se nas roupas, assemelham-se na interação coreográfica e, por vezes, sugerem um organismo com um sistema sanguíneo único...” “...Isabella Lemos e Marcelo Pacífico vêem sob um ângulo bem definido a peça que escolheram, representam com imagens bonitas e preparo técnico incomum as rápidas mutações do texto e, desde o primeiro momento, seguram com rédea curta a emotividade das personagens para evitar a tonalidade fácil do melodrama.”

Texto
Finalizado em 27 de julho 1966, o texto foi arquivado por Vianinha e nunca levado a público.  Dentre as várias hipóteses, acredita-se que ele a tenha guardado por entender que ela não combinava com a proposta cultural do grupo Opinião, do qual fazia parte à época. A peça só foi resgatada por sua viúva, Maria Lúcia Marins, aproximadamente 18 anos depois, durante uma pesquisa de compilação de todos os trabalhos do dramaturgo. O nome original deste texto era o mesmo de outra peça de Vianinha escrita em 1970, Corpo a Corpo. Assim, optou-se por chamar a peça de “Mão na Luva”, frase que é citada no texto e o define muito bem. A primeira e mais relevante das pouquíssimas montagens da obra até hoje foi realizada em 1984, dirigida por Aderbal Freire Filho, com Marco Nanini e Juliana Carneiro da Cunha interpretando o casal.

Oduvaldo Vianna Filho
Nascido em 04 de junho de 1936, em Humaitá, Rio de Janeiro, filho do teatrólogo Oduvaldo Vianna e de Deocélia Vianna, Vianinha (como sempre foi conhecido) viveu intensos e produtivos 38 anos. Dramaturgo, ator, roteirista de cinema e televisão, participou ativamente (muitas vezes como fundador e líder) de vários movimentos e grupos teatrais e políticos. Vianinha recebeu vários prêmios por seus textos teatrais, inclusive alguns póstumos em virtude de terem sido censurados pela ditadura. E está em lugar de destaque na dramaturgia brasileira por obras como: “Mão na Luva”, “Moço em Estado de Sítio”, “Corpo a Corpo”, “Papa Highirte” e “Rasga Coração”. Faleceu em 16 de julho de 1974.

Oduvaldo Vianna Filho tornou-se o paradigma do artista criador e intelectual consciente do Terceiro Mundo, que acreditou na arte como forma de conhecimento e a utilizou como arma para a libertação. Com paixão avassaladora e uma dedicação quase religiosa, se entregou inteiro à utopia de, como artista e cidadão, ‘mudar o mundo’.” Alcione Araújo, no prefácio do livro Vianinha Cúmplice da Paixão de Dênis de Moraes.

Ficha Técnica
Concepção e interpretação: Isabella Lemos e Marcelo Pacífico
Iluminação: André Canto
Arte Gráfica: Ricardo Dantas
Fotos: Paulo Emílio Lisboa e Amanda Carvalho
Produção executiva: Teatro CIA
Co-produção e Supervisão artística: Grupo Tapa/Eduardo Tolentino de Araújo
Coordenação do núcleo de estudos do Tapa: Guilherme Sant´Anna e Brian Penido Ross


Grupo TAPA
O Teatro Amador Produções Artísticas, TAPA, foi fundado em 1979, no Rio de Janeiro, estreando com o infantil Apenas um Conto de Fadas, de sua autoria. Criações mais consistentes surgiram a partir de 1983, como Viúva, porém Honesta, de Nelson Rodrigues, e Pinóquio, de Carlo Collodi, 1984. No ano seguinte, o TAPA abre o Festival de Teatro Brasileiro, projeto que se perpetua por muitos anos, por meio de encenações de grandes autores nacionais.

Em 1986, o grupo transfere-se para São Paulo, ocupando, como sede, o Teatro Aliança Francesa, por quinze anos, montando peças como: A Mandrágora, de Maquiavel, e Solness, o Construtor, de Henrik Ibsen; Sr. de Porqueiral, de Molière, Nossa Cidade, de Thornton Wilder, As Raposas do Café, de Celso Luís Paulini e Antônio Bivar, A Megera Domada, de William Shakespeare, As Portas da Noite, Jaques Prévert e Querô, uma Reportagem Maldita, de Plínio Marcos.

O grupo retoma o teatro realista em 1993, com Senhora Klein, de Nicholas Wright, e, no ano seguinte, ousa renovar Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues. A partir de 1995, encena Corpo a Corpo, de Oduvaldo Vianna Filho, Rasto Atrás, de Jorge Andrade, Do Fundo do Lago Escuro, de Domingos Oliveira, Navalha na Carne, de Plínio Marcos e Moço em Estado de Sítio, de Oduvaldo Vianna Filho, em 1997; aproxima-se da cultura russa com Ivanov, de Anton Tchekhov; em 1999, A Serpente, de Nelson Rodrigues, As Viúvas, reunindo textos curtos de Artur Azevedo e uma adaptação de histórias de Maupassant, Contos de Sedução, em 2000.

Em 2001, o conjunto de atores interpreta Os Órfãos de Jânio, de Millôr Fernandes e Major Bárbara, de Bernard Shaw; A Importância de Ser Fiel, de Oscar Wilde, foi protagonizado por Nathália Timberg, em 2002. No mesmo ano, realiza Executivos, de Daniel Besse. Em 2003, remonta Melanie Klein, de Nicholas Wright.  Remonta com sucesso a peça A Mandrágora, de Maquiavel, em 2004. Camaradagem, de August Strindberg, foi eleito o melhor espetáculo de 2006 pela APCA. Em 2008, remonta Jorge Andrade com A Moratória, e estreia Amargo Siciliano, com textos de Pirandello e O Ensaio, de Jean Anouilh, além de Retratos Falantes, monólogos de Alan Bennett.

Em 2009, estreou o espetáculo inédito A Cloaca, da autora holandesa Maria Goos. Em 2010 promoveu o PANORAMA DO TEATRO BRASILEIRO 2ª geração, uma segunda edição da mostra de peças brasileiras que fez história na década de 1990. Atualmente, trabalha a montagem de Vestir os Nus, de Luigi Pirandello. Nestes mais de 30 anos, o Grupo TAPA já foi contemplado com todos os prêmios brasileiros disponíveis, entre APCA, Shell, Moliêre, Mambembe/Fundacen, APETESP, Governador do Estado de São Paulo e outros. Sendo um dos grupos mais respeitados e sólidos do país.

Teatro CIA
A Teatro CIA surgiu dentro do Núcleo de Atores do Grupo TAPA com o trabalho conjunto dos atores Isabella Lemos e Marcelo Pacífico, iniciado em julho de 2007, com o texto Mão na Luva, de Oduvaldo Vianna Filho. A montagem, dirigida pelos próprios atores sob supervisão artística do TAPA, estreou em janeiro de 2009 como o primeiro trabalho desenvolvido inteiramente dentro do Núcleo de Atores. Desde então, a Teatro CIA busca a continuidade do trabalho de pesquisa e estudos, especialmente baseado na qualidade dramatúrgica dos textos, e no desenvolvimento de uma linguagem teatral criativa e particular. Alicerçada sempre em soluções técnicas simples e se valendo ao máximo do corpo e voz do ator para as soluções cênicas.


Serviço
Funarte-MG apresenta “Mão na Luva”, texto de Oduvaldo Vianna Filho, montado pelo Grupo Tapa e Teatro CIA
Data/Horário: de 20 de janeiro a 06 de fevereiro - quinta a sábado, às 20h, e domingo, às 19h
De 12 a 27 de fevereiro, sábado, às 20h, e domingo, às 19h
Local: Galpão 3 da Funarte-MG (Rua Januária, 68 – Bairro Floresta)
Ingressos: R$ 10,00 (inteira) / R$ 5,00 (meia-entrada)
Duração: 70 minutos
Classificação: 14 anos
Informações: (31) 3213.3084
Serão realizados seminários e oficinas durante a temporada. Interessados em participar deverão entrar em contato pelo telefone de informações.



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