sexta-feira, 22 de julho de 2011

Leite Derramado - 2

"Cuidei pessoalmente da remossão de mamãe, vim com ela cuidadosamente na traseira da ambulância, sem tirar os olhos de seus olhos baços. (...) Mas já no dia seguinte, sem sobressaltos, simplesmente deixou de respirar. (...) Já para o jardineiro do casarão, mamãe era mesmo como a flor, que ao mudar de vaso, às vezes fenece."

"Somente hoje, oitenta anos passados, como um alarme na memória, como se fosse azul-celeste a cor de uma tragédia, reconheço na mulher o vestido rodado que meu pai comprou na véspera."

"Era como se, no silêncio da noite, Matilde passasse para buscar suas coisas no rosto da filha, em vez dos vestidos no armário ou dos brincos na gaveta."

"Se com a idade a gente dá para repetir casos antigos, palavra por palavra, não é por cansaço da alma, é por esmero. É para si próprio que um velho repete a mesma história, como se assim tirasse cópias dela, para a hipótese de a história se extraviar."

Leite Derramado - Buarque, Chico (Companhia das Letras) 

Nenhum comentário: