quinta-feira, 16 de abril de 2015

Teatro em Movimento, por meio do patrocínio do Itaú, via Lei Federal de Incentivo à Cultura, traz a BH espetáculo com Marco Nanini, que reverencia a vida e a obra de Oscar Wilde



Com texto inédito de Jô Bilac, “Beije Minha Lápide” recebeu as indicações dos mais importantes prêmios do teatro brasileiro. Com direção de Bel Garcia e elenco formado Carolina Pismel, Júlia Marini e Paulo Verlings (Cia. Teatro Independente), espetáculo evoca o universo do escritor irlandês, morto em 1900 aos 46 anos, e leva o público a refletir sobre temas atuais, como injustiça, intolerância e homofobia. Dias 18 e 19 de abril, no Sesiminas 


O Teatro em Movimento recebe “Beije Minha Lápide”, espetáculo com Marco Nanini no papel principal, que conta a historia de Bala, ardoroso fã de Oscar Wilde que está preso por quebrar a barreira de vidro que isola o túmulo do escritor no célebre cemitério de Père Lachaise, em Paris. Nanini tinha um antigo desejo de trabalhar com a obra de Oscar Wilde (1854-1900), mas nunca elegeu – entre tantas pérolas – um texto do dramaturgo para levar ao palco. Tampouco cogitava fazer uma biografia teatral, mesmo com a rica e conturbada trajetória do irlandês - ele foi preso por sodomia e outros crimes sexuais, no auge de sua carreira, ao se recusar a aprisionar seus impulsos afetivos. O impasse de Nanini foi rompido com esse texto inédito de Jô Bilac, indicado aos prêmios APTR, Shell e Cesgranrio. Dirigida por Bel Garcia e produzida por Fernando Libonati (Pequena Central), a montagem tem duas apresentações na capital mineira, no Sesiminas, dias 18 e 19 de abril, sábado às 20h e domingo, às 19h.
Desde a estreia, em agosto de 2014, o espetáculo foi aclamado pela crítica e visto por cerca de 15 mil pessoas, com apresentações no Rio de Janeiro e São Paulo. Pela Associação dos Produtores de Teatro recebeu indicação ao prêmio nas categorias: produção, ator protagonista, texto, atriz coadjuvante (Carolina Pismel) e cenário (Daniela Thomas). Indicado ao primeiro Shell como melhor texto. E indicado ao prêmio Cesgranrio como melhor texto e cenografia.
Para a realização de suas atividades, em 2015, o projeto mantém a parceria de patrocínios com o Itaú, via Lei Federal de Incentivo à Cultura. 

“Beije Minha Lápide” 




Se o drama de Bala é fictício, a proteção da sepultura é real e foi colocada por conta de um curioso ritual que os fãs de Wilde faziam ao visitar o local, ao – como o título do espetáculo indica – beijar a tal lápide. “O texto tem muitas analogias com a vida e a obra de Wilde, com algumas citações mais explícitas e outras que se refletem nas falas e nas histórias das personagens. Quem não conhece Oscar Wilde vai entender perfeitamente e esperamos que saia querendo conhecê-lo mais”, explica Nanini, responsável por convidar Bel Garcia para a direção e o jovem elenco da Cia. Teatro Independente para dividir o palco.
Carolina Pismel, Júlia Marini e Paulo Verlings vem de montagens bem-sucedidas da jovem companhia, como ‘Cachorro!’, ‘Rebu’ e ‘Cucaracha’, todas com autoria de Jô Bilac. Já Bel Garcia, fundadora da Cia. dos Atores, esteve como atriz na montagem de ‘O Bem Amado’ protagonizada por Nanini em 2007 e, desde então, desenvolveu carreira de diretora que culminou na premiada ‘Conselho de Classe’, dirigida em parceria com Susana Ribeiro e também escrita por Bilac. Assim como nas montagens do grupo, elenco, direção e autor construíram juntos a dramaturgia em um processo colaborativo.
O processo e a equipe
Desde o primeiro momento, discutimos muito o conceito geral, os diálogos e o desenvolvimento das cenas. Fiquei impressionado com a rapidez do Jô, que modificava cenas inteiras em um dia e entregou o texto final em menos de um mês”, lembra Nanini. “O interessante é que o texto traz uma visão brasileira, de um autor brasileiro, sobre a história e o mito. Tem uma Paris retratada que pode ser um reflexo do Rio de Janeiro também”, analisa Bel Garcia.
Nanini e Fernando Libonati convocaram o grupo depois de assistir com entusiasmo a todo o seu repertório, que ocupou o Galpão Gamboa – espaço mantido pela dupla na Zona Portuária do Rio – em diversas temporadas. A equipe de criação é formada ainda pelos antigos colaboradores Daniela Thomas (cenografia), Antônio Guedes (figurino) e Beto Bruel (iluminação), parceiros de Nanini e Libonati em montagens como “Pterodátilos” (2010). Rafael Rocha, do grupo Tono, assina a trilha e Julio Parente as projeções.
“O texto já tem uma imagem forte e asséptica, ao trazer o protagonista preso em uma cela de vidro. A partir disto, a iluminação, a música e as projeções ajudam a trazer uma ‘temperatura’ para a cena”, resume Bel. “O vidro ironiza de forma bem cruel esta sensação de confinamento, pela qual Wilde passou injustamente, ao ser condenado por sodomia”, assinala Nanini.
Nanini, Wilde e Bilac
Foi na prisão onde Wilde escreveu ‘De Profundis’, uma de suas obras mais importantes, espécie de carta de amor escrita diariamente durante os dois anos em que esteve encarcerado. O texto documenta a conturbada relação de amor e ódio que manteve com Lord Alfred Douglas. Em uma profunda autoanálise de consciência, Wilde tece reflexões e observa à distância a sua própria tragédia.
’De Profundis’ traz Wilde fora de sua vida de luxo e sucesso que tinha desde então e mostra como a prisão redimensionou as suas percepções sobre a vida e a morte’, conta Jô Bilac, que criou a peça inspirado pela força que o discurso do escritor ainda tem. Nanini concorda: ‘‘De Profundis’ é quase um milagre pela forma com que foi escrita. Não somente os temas de Wilde que são atualíssimos, mas também a sua escrita irônica e elegante’, afirma Nanini, cujo tempo livre tem sido dedicada à pesquisa e releitura de textos do irlandês.
Bilac, que diz ter criado Bala como diálogo de seu encontro com Wilde e Nanini, passa a integrar o extenso e variado currículo teatral de Marco Nanini.
Somente nas últimas duas décadas – sempre com Libonati na produção – o ator protagonizou clássicos de Molière, (‘O Burguês Ridículo’, 1996), Edward Albee (‘Quem Tem Medo de Virginia Woolf, 2000) e Arthur Miller (‘A Morte de Um Caixeiro Viajante’, 2003), além de espetáculos mais ligados ao experimentalismo (‘Um Circo de Rins e Fígados’, de Gerald Thomas, 2005, e ‘A Arte e a Maneira de Abordar Seu Chefe Para Pedir um Aumento’, texto de Georges Perec com direção de Guel Arraes, em 2012). 
Esta alta produtividade inclui ainda autores nacionais (Dias Gomes, em ‘O Bem Amado’, de 2007, e João Falcão, no monólogo ‘Uma Noite na Lua’, 1997) e um flerte com a dramaturgia do americano Nicky Silver em ‘Os Solitários’ (2002) e ‘Pterodátilos’ (2010), ambas com direção de Felipe Hirsch. Neste período, conquistou os Prêmios Shell, Sharp, Mambembe, Bravo, APTR, APCA, Qualidade Brasil, Quem, Contigo e Faz Diferença (O Globo).
O Texto
O túmulo do escritor irlandês Oscar Wilde, no cemitério Père Lachaise, em Paris, é vedado ao público para evitar a erosão provocada, maioritariamente, pelo batom das visitantes que têm o hábito de demonstrar a admiração pelo escritor beijando a pedra. Uma barreira de vidro impede agora que qualquer um se aproxime.  Bala, é um  escritor com 60 anos, ainda com prestígio, mas afastado do mundo artístico. Politicamente incorreto, Bala é grande admirador de Oscar Wilde. Considerando um completo absurdo, além de uma afronta a memória do seu ídolo,  Bala quebra ele mesmo a barreira de vidro. Bala é preso e considerado senil. Na cadeia, recebe a visita da jovem advogada Roberta que se diz enviada pelo Estado como advogada de defesa. Bala não aceita advogados, alegando sanidade  e reafirmando que faria tudo novamente, mas acaba se simpatizando por Roberta,  sem saber que a jovem advogada  foi contratada por Ingrid, filha de Bala, que não o vê  faz muito tempo. 
Ingrid é guia no cemitério Pere Lachaise, passa o dia entre as tumbas das maiores celebridades mundiais. Grande fã de Wilde, entende as razões do pai, mas não entende o fato dele não aceitar sua visita, nem ajuda. Ingrid é jovem e está em pleno momento de mudança, vê em Paris um reflexo de um sistema cada vez mais asséptico,  de um mundo virtual que está cada vez mais perdendo o tato. Ingrid recebe notícias do pai através de Roberta, que acaba revelando que Bala está escrevendo uma carta diretamente para ninguém mais que Oscar Wilde.  Roberta tenta entender as razões do seu cliente, travando embates ideológicos que no lugar de afastar, acaba aproximando cada vez mais os dois. 
Na cadeia,  Fabian, jovem carcereiro cuja a ingenuidade e gentileza encantam Bala, inicia uma amizade íntima com o preso, numa linha tênue  entre desejo e poder.  A narrativa avança pelos dias de Bala, preso em sua cela de vidro, isolado como o túmulo de Wilde, num fluxo obsessivo,  como Salomé, exigindo o beijo de João Batista.  
O texto tem o túmulo de  Oscar Wilde como ponto de partida,  em um paralelo Paris/Rio de Janeiro e com todas as grandes capitais, que em nome do seu cartão postal,  levantam diariamente barreiras visíveis e invisíveis, evitando qualquer espontaneidade afetiva que nos aproxime de uma organicidade harmoniosa, mas que estejam perfeito para uma foto, um selfie.

Ficha Técnica
Texto: Jô Bilac / Direção: Bel Garcia/ Elenco: Marco Nanini, Carolina Pismel, Júlia Marini, Paulo Verlings / Produção: Fernando Libonati/ Idealização: Marco Nanini e Felipe Hirsch / Figurino: Antônio Guedes/ Iluminação: Beto Bruel /Cenografia: Daniela Thomas / Concepção e direção de Vídeo: Julio Parente e Raquel André / Videografismo: Júlio Parente / Trilha Sonora: Rafa Rocha / Design Gráfico: Felipe Braga / Fotografia: Cabéra / Visagismo: Ricardo Moren/ Visagismo Marco Nanini: Graça Torres / Assistente de direção: Raquel André /Equipe de Produção - Coordenação e gestão de projetos: Carolina Tavares / Direção de Produção: Leila Maria Moreno / Produção Executiva: Monna Carneiro / Assistente de Produção: Gutemberg Rocha e Glauco Lopes / Realização: Pequena Central / Realização em Belo Horizonte: Teatro em Movimento, com recursos da Lei Federal de Incentivo à Cultura, com patrocínio do Itaú/ Produção em Belo Horizonte: Rubim Produções 

Crítica Mauricio Mellone - APCA - sobre “Beije Minha Lápide” (…) O que me chamou muito a atenção é como o texto — criado por Bilac depois de um processo de discussão entre elenco e direção — não é uma obra fechada com destinos predeterminados; as indagações são levantadas, as histórias delineadas, mas o publico é provocado a refletir e construir a história. (…) Com a iluminação (Beto Bruel), a projeção de vídeo (Julio Parente e Raquel André) e a trilha sonora (Rafael Rocha) muito bem articuladas, a direção de Bel Garcia cria um clima impactante que deixa o espectador plugado a tudo o que ocorre no palco. A sintonia em cena entre Julia e Carolina (já consagrada em Cucarracha) e a atuação precisa de Verlings, que imprime verdade à dúbia personalidade daquele guarda, engrandecem ainda mais a montagem. E a interpretação de Nanini mais uma vez revela que estamos diante de um dos maiores atores de sua geração. Fiquei impressionado com a cena em que a projeção do vídeo se justapõe à fala do personagem na cela: vemos a versatilidade e as inúmeras nuances de interpretação do ator.

Serviço: 
Beije Minha Lápide, com Marco Nanini e elenco
Classificação: 16 anos -   Duração: 80 minutos – Gênero: Drama
Dias/horários: 18 e 19 de abril de 2015, sábado às 20h e domingo às 19h
Local: Teatro Sesiminas - Rua Padre Marinho, 60 - Santa Efigênia 
Ingressos: R$ 50,00 a R$ 70,00
Meia entrada válida para maiores de 60 anos e para estudantes devidamente identificados (conforme MP 2208/2001)
R$ 50,00 - válido para os 20% da capacidade vendável do teatro em atendimento ao Vale Cultura. 
10% da capacidade vendável do teatro que é destinada gratuitamente para entidades de baixa renda devidamente comprovadas. Vendas: bilheteria do teatro e www.ingressos.com

Informações: Telefone:(31)  32417181 – sites: www.teatroemmovimento.art.br / 

Informações para a imprensa:
Jozane Faleiro - (31) 35676714 / 92046367 -  contato@jozanefaleiro.com


Teatro em Movimento
O projeto Teatro em Movimento, coordenado pela Rubim Produções, de Tatyana Rubim, foi criado há 14 anos, com o objetivo de descentralizar o acesso às grandes montagens do eixo Rio-São Paulo, promovendo a circulação dos mesmos para outros Estados e também pequenas cidades. Desde então, contabiliza 174 montagens, que somam mais de 503 apresentações, envolvendo cerca de 537 artistas, em 14 cidades, 27 teatros e público superior a 365 mil pessoas. 
Inicialmente, atuando em Minas Gerais e seu entorno, o projeto trouxe à capital mineira e algumas cidades do interior, espetáculos com peso nacional, tendo no elenco atores como Bibi Ferreira, Thiago Lacerda, Vladimir Brichta, Cissa Guimarães, Mateus Solano, Glória Menezes, Antônio Fagundes, Nicete Bruno, Paulo Goulart, Marco Nanini, Luana Piovani, Lilia Cabral, Rodrigo Lombardi, Cláudia Raia, Marisa Orth, Renata Sorrah, Paulo Gustavo e muitos outros.  Dentre os espetáculos que o projeto deslocou para a capital mineira estão “Hamlet”, “Incêndios”, “Esta Criança”, “Gonzagão – a Lenda”, “Bibi Ferreira – Histórias e Canções”, “Quem Tem Medo de Virgínia Woolf”, “O Grande Circo Místico”, “New York, New York”, “Bem-vindo, Estranho”, “Milton Nascimento – Nada Será Como Antes”, “Cassia Eller – o Musical”, “Azul Resplendor”, “Poema Bar” e muitos outros. 

O projeto também já atuou em diversos Estados brasileiros, como São Luiz (MA), Vitória (ES) e Aracajú (SE).  Em Minas Gerais, além de Belo Horizonte, o projeto atua em Nova Lima, Betim e Araxá. Os resultados do projeto vão além da inclusão das cidades na circulação das montagens. A iniciativa possibilita a formação de um espectador mais crítico e de um público mais preparado e habituado a lotar as salas dos teatros. A ideia é consolidar o hábito de ir ao teatro e fomentar a cultura das artes cênicas, por isso os espetáculos acontecem ao longo do ano e não concentrados em um curto período como nos festivais. O teatro, sendo um agente de transformação social, é capaz de atuar como um difusor de ideias e de cultura podendo ser usado como um instrumento de comunicação. Para ratificar a potencialidade de transformação social e cultural do teatro e colocar em prática os objetivos do projeto, o Teatro em Movimento ainda promove, sempre que possível, oficinas gratuitas, palestras e workshops para profissionais da área e interessados. Dessa forma, cria-se uma rede de circulação de informação fortalecendo a possibilidade de sustentabilidade do setor cultural.

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